Giovanni Antonio Andreoni (1650-1716), conhecido como André João Antonil, nascido em Lucca, na Itália. Jesuita, formato em direito, foi enviado pela Coimpanhia de Jesus no Brasil em 1681.
Em 1711 publicou Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas, obra que retrata a economia brasileira durante os séculos 17 e 18, donde tirei a parte sobre a produção de tabaco.
DO CULTIVO E PREPARO DO TABACO NO BRASIL
CAPÍTULO I
Como se começou a
tratar no Brasil da planta do tabaco, e a que estimação tem chegado.
Se o açúcar do Brasil o tem dado a conhecer a todos os reinos e províncias da
Europa, o tabaco o tem feito muito mais afamado em todas as quatro partes do
mundo, nas quais hoje tanto se deseja, e com tantas diligências e por qualquer
via se procura. Há pouco mais de cem anos que esta folha se começou a plantar e
beneficiar na Bahia; e vendo o primeiro que plantou o lucro, posto que
moderado, que então lhe deram umas poucas arrobas, mandadas com pequena
esperança de algum retorno a Lisboa, animou-se a plantar mais, não tanto por
cobiça de negociante, quanto por se lhe pedir dos seus correspondentes e amigos
que a repartiam por preço acomodado, porém já mais levantado. Até que, imitado
dos vizinhos, que com ambição a plantaram e enviaram em maior quantidade, e,
depois, de grande parte dos moradores dos campos, que chamam de cachoeira, e de
outros do sertão da Bahia, passou pouco a pouco a ser um dos gêneros de maior
estimação que hoje saem desta América meridional para o Reino de Portugal e
para os outros reinos e repúblicas de nações estranhas. E, desta sorte, uma
folha antes desprezada, e quase desconhecida, tem dado e dá atualmente grandes
cabedais aos moradores do Brasil e incríveis emolumentos aos erários dos
príncipes.
Desta, pois, falaremos agora, mostrando primeiramente como se semeia a planta,
como se alimpa e colhe, como se beneficia e cura, como se enrola e se despacha
na alfândega. 2. Como se pisa e se lhe dá o cheiro, qual é melhor para se
mascar, qual para o cachimbo e qual para se pisar, e se o granido ou o em pó.
3. Do uso moderado dele para a saúde, e do imoderado e vicioso na quantidade,
no lugar e no tempo. 4. Dos rolos que cada ano ordinariamente se embarcam do
Brasil para Portugal, do valor dele na Bahia e no Reino, das penas para se não
mandar ou introduzir sem despacho, e dos artifícios para se passar de
contrabando, não obstante a vigilância dos guardas, assim dentro, como fora de
Portugal. E, finalmente, do rendimento deste contrato e da repartição do tabaco
por todas as partes do mundo. Tudo conforme as notícias certas que procurei e
me deram os mais inteligentes e mais versados nesta lavra, no que direi, me
reporto.
CAPÍTULO II
Em que
consiste a lavra do tabaco, e de como se semeia, planta e alimpa, e em que
tempo se há de plantar.
Toda a lavra e cultura do tabaco consiste, por sua ordem, em se semear,
plantar, ampliar, alimpar, capar, desfolhar, colher, espinicar, torcer, virar,
ajuntar, enrolar, encourar e pisar; e de tudo isso iremos falando nos capítulos
seguintes. E, começando neste pela planta: semeia-se esta em canteiros bem
estercados, ou em queimadas feitas no mato, aonde há terra conveniente para
isso e aparelhadas no mesmo ano em que se há de semear. O tempo em que
comumente se semeia são os meses de maio, junho e julho; e, depois de nascida a
semente, nasce também com ela algum capim, o qual se tira com tento, que se não
arranque por descuido com o capim vicioso a planta inocente.
Tendo a planta já um palmo, ou pouco menos, de altura, se passa dos canteiros,
aonde nasceu, para os cercados ou currais, aonde se há de criar, cuja terra,
quanto mais estercada, é melhor. Mas, se nos ditos currais morou por muito
tempo o gado, há-se de tirar antes alguma parte de esterco, para que a força
dele, ainda não curtido do tempo não queime a planta, em vez de ajudar.
Distribui-se a dita terra em regos, com riscador, para que a planta fique
vistosa. A distância de um rego de outro é de cinco palmas, e a das plantas
entre si é de dois palmos e meio, para que se possam estender e crescer
folgadamente, sem uma ser de embaraço à outra. Planta-se em covas de um palmo,
quanto cava a enxada metida; e estas se enchem de terra bem estercada e com
vigilância e cuidado se corre a dita planta todos os dias para ver se tem
lagarta, e esta logo se mata, para a não comer, sendo tenra. Os inimigos da
planta são, ordinariamente, além da lagarta, a formiga, o pulgão e o grilo. A
lagarta , em pequena, corta-lhe o pé ou raiz debaixo da terra, e, em crescendo,
corta-lhe as folhas. O mesmo faz também a formiga, e por isso se põem nos
regos, aonde esta aparece, outras folhas de mandioca ou da aroeira, para que
delas comam as formigas e não cheguem a cortar e comer as do tabaco que, sendo
cortadas desta sorte, não servem. O pulgão, que é um mosquito preto, pouco
maior que uma pulga, faz buracos nas folhas e estas, assim furadas, não prestam
para se fazer delas torcida. O grilo, enquanto a planta é pequena, a corta
rente da terra, e, sendo já crescida, também se atreve a cortar-lhe as folhas.
Sendo a folha já bastantemente crescida, se lhe chega ao pé aquela terra que se
tirou da covas em que foi plantada, daquela parte que ficou arrumada mais alta;
porém, em tempo de inverno, não se aperta muito, porque toda está úmida; no
verão, aperta-se mais, para que a terra a defenda e a umidade, posto que menor,
lhe dê o primeiro alimento. E isto faz quem a planta.
Estando a planta em sua conta, com oito ou nove folhas, conforme a força com
que vem crescendo, se lhe tira o olho de cima ou grelo, antes de espigar, o
que, por outra frase, chamam capar. E porque faltando-lhe este olho, nasce em
cada pé das folhas outro olho, todos estes olhos se hão de botar fora (e a isto
chamam desolhar) para que não tirem a sustância às folhas. E esta diligência se
faz pelo menos de oito em oito dias; e mais freqüentemente se visitam e correm
os regos para tirar o capim, até estarem as folhas sazonadas, o que se conhece
por aparecerem nelas umas nódoas amarelas, ou por estar já preto por dentro o
pé da folha, o que comumente sucede ao quarto mês depois de postas em suas
covas as plantas.
CAPÍTULO III
Como se tiram
e curam as folhas do tabaco; como delas se fazem e beneficiam as cordas.
Quebram-se as folhas rente da hástea com o talo, e juntas em casa se deixam
estar assim por vinte e quatro horas, pouco mais ou menos; e logo antes de se
esquentarem e secarem, se dependuram duas e duas pelo pé, metidas entre a palha
(de que constam as casas em que se beneficiam) e as varas, ou, em outra parte,
aonde lhes dê o vento mas lhes não chegue o sol. E, tanto que estiverem enxutas
em sua conta, que pouco mais ou menos será depois de estarem assim dependuradas
dois dias, se botam no chão, e se lhes tira a maior parte do talo pela parte
inferior, com o devido cuidado, para que se não rasgue com o desvio do talo; e
a isso chamam espinicar. E então se dobram pelo meio as melhores, que hão de servir
de capa para a corda que se há de fazer de todas as mais folhas. E advirta-se
que as folhas que se tiraram em um dia não se hão de misturar senão com as que
se tirarem no dia seguinte, para se sejam igualmente sazonadas; e, se não forem
assim, umas prejudicarão ao bom concerto das outras.
Curadas as folhas e tirado já o talo, como está dito, delas se faz uma corda da
grossura quase de três dedos. E, para isso, haverá roda e um torcedor
entendido, para que a corda fique unida, igual e forte, e atrás dele estará
outro, colhendo a torcida sobre um pau ou sobre o aparelho, como qualquer outra
corda simples e não como as que se fazem de cordões; e junto do torcedor vão os
rapazes, que dão as folhas para se torcerem em corda.
CAPÍTULO IV
Como se cura o tabaco depois de torcido em corda.
Feita a corda do comprimento que quiserem e enrodilhada em um pau, se desenrola
cada dia, a saber, pela manhã e à noite, e passa-se a outro pau, para que não
arda; e na passagem se vai torcendo e apertando brandamente, para que fique bem
ligada e dura. E, tanto que ficar preta, vira-se só uma vez cada dia; e, como
se vai aperfeiçoando, se diminuem as viraduras, até ficar em estado que se
possa recolher sem temor de que se apodreça. E comumente este benefício costuma
durar quinze ou vinte dias, conforme vai o tempo mais ou menos úmido ou seco.
Seque-se atrás disto o que chamam ajuntar, que vem a ser pôr três bolas de
corda de tabaco em um pau, aonde fica até que chegue o tempo de enrolar. E,
entretanto, guardam-se estas bolas no tendal, que é como um andaime alto, com
seus regos embaixo, para receberem a calda que botam de si essas bolas e esta
se ajunta e guarda para depois usar dela, quando for tempo de enrolar.
O último benefício que se lhe faz é o seguinte: tempera-se a calda do mesmo
tabaco com seus cheiros de erva doce, alfavaca e manteiga de porco; e quem faz
manojos de encomenda bota-lhe almíscar ou âmbar, se tem; e por esta calda
misturada com mel de açúcar (quanto mais grosso melhor) se passa a mesma corda
de tabaco uma vez, e logo se fazem os rolos, do modo seguinte.
CAPÍTULO V
Como se enrola e encoura o tabaco, e que pessoas se ocupam em toda a fábrica
dele, desde a sua planta até se enrolar.
Para enrolar o tabaco, dobram-se a corda já curada e melada, de comprimento de
três palmos, sobre uma estaca não muito grossa e leve, que nas extremidades tem
quatro taboinhas em cruz, sobre as quais, dobrada e segurada de uma e outra
parte a dita corda, se vai enrolando até o fim, puxando sempre bem e unindo uma
dobra com outra, de sorte que não fique vão algum entre as dobras. E para que
as cabeças fiquem sempre direitas, além das cruzetas que levam, lhes vão
metendo folhas de urucuri nos vãos, para que fiquem bem unidas com as dobras de
dentro.
Acabado o rolo, se cobre primeiramente com folhas de caravatá secas, amarradas
com embira; e depois se lhe faz uma capa de couro da medida do rolo, a qual,
cosida e apertada muito bem, marca-se com a marca do seu dono. E desta sorte
vão os rolos por terra em carros e por mar em barcos a serem despachados na
alfândega, antes de se meterem nas naus. E cada pesa comumente oito arrobas.
Vindo agora a falar da pessoas que se ocupam na fábrica e cultura do tabaco,
ela é tal que a todos dá que fazer, porque nela trabalham grandes e pequenos,
homens e mulheres, feitores e servos. Mas, nem todos servem para qualquer
ministério, dos que acima ficam referidos. Para semear e plantar a folha é
necessário que seja pessoa que entenda disso, para que se guarde bem o modo, a
direitura e a distância, assim do regos como das covas. O cavar as covas
pertence aos que andam no serviço com a enxada; os rapazes botam os pés da
planta, a saber, um em cada uma das covas, que já ficam feitas. E o que planta,
aperta-lhe a terra ao pé mais ou menos, conforme a umidade dela. Toda a gente
se ocupa em catar a lagarta duas vezes no dia, a saber, pela madrugada e depois
de estar o sol posto, porque de dia está debaixo da terra, e o sinal de estar
aí é o achar-se alguma folha cortada de noite. Chegar-lhe a terra com a enxada
é trabalho dos grandes. Capar a planta já crescida, isto é, tirar-lhe o olho ou
grelo na ponta da hástea é ofício de negros mestres. Desolhar, que vem a ser
tirar os outros olhos que nascem entre cada folha e a hástea, fazem pequenos e
grandes. Apanhar ou colher as folhas é de quem sabe conhecer quando é tempo,
pelo sinal que tem a folha aonde se pega com a hástea, que é o ser aí de cor
preta. Toda a gente de serviço se ocupa em dependurar as folhas nos altos, e
isto se faz comumente de noite. Pinicar ou espinicar ou espicar, que tudo é o
mesmo, e vem a ser tirar o talo às folhas do tabaco, é trabalho leve, de
pequenos e grandes. Torcer as folhas, fazendo delas corda, encomenda-se a algum
negro mestre; e o que anda com a roda ou engenho de torcer há de ser negro
robusto; e também botar a capa à corda, para que fique bem redonda, é obra de
negro experimentado. Os rapazes dão ao torcedor as folhas e também as capas ao
que vai cobrindo com as melhores a corda, e o mesmo que bota as capas é o que
enrola. O passar as cordas de um pau para o outro vai por conta de dois negros,
dos quais um está no virador e outro vai desandando a corda enrolada no pau. Os
que viram, ou mudam a corda de um pau para outro são negros mestres, e em cada
virador são necessários três: um que largue a corda, outro que a colha e outro
que ande no virador. Ajuntar, que é pôr a corda de três bolas em um pau, é obra
dos negros mais destros, e são três, e às vezes quatro, porque não basta um só
no virador, mas há mister dois, para que apertem bem a corda. Enrolar,
finalmente, é ocupação de bons oficiais, para que fique a obra segura.
(Antonil, André João. Cultura e opulência no Brasil. 3ª ed.. Belo Horizonte;
São Paulo, Editora Itatiaia; Editora da Universidade de São Paulo, 1982.
Reconquista do Brasil (nova série), 70)


